Um grande romance de Fernando Sabino


Apaixonei-me pela prosa de Fernando Sabino à primeira leitura. Lembro-me de ter lido dele, há bastante tempo, um livro de contos. Sem dúvida, trata-se de um contista maravilhoso, mas desconhecia por completo o romancista. Pelo menos isso era verdade até o último 7 de setembro, quando concluí as 256 páginas de O grande mentecapto, edição publicada pela editora Record. Esse incrível romance conta as aventuras e desventuras de Geraldo Viramundo, um personagem quixotesco simpaticíssimo, com o qual é impossível não se identificar imediatamente. Fazia tempo que um livro não me fazia rir tanto.

A história se passa em Minas Gerais, estado percorrido por Viramundo em suas andanças, cidade a cidade, cumprindo a sua sina de peregrino, sendo cidadão do mundo e, ao mesmo tempo, não pertencendo a lugar algum. Sua aventura começa na infância em Rio Acima, cidadezinha à beira de uma estrada de ferro, onde justamente Viramundo realiza a proeza de parar um trem, acontecimento que faz sua fama, e será motivo de cair em desgraça. De Rio Acima, Viramundo vai para o seminário em Mariana, quando começa a dar sinais de falta de juízo, envolvendo-se em um incidente que acabou provocando sua expulsão da instituição religiosa, e, em seguida, da própria cidade. De Mariana, o personagem vai a Ouro Preto, onde faz amizade com o estudante Dionísio, que morava em uma República, e conhece sua amada, a filha do governador Clarimundo Ladisbão, que ignora sua existência, mas por quem Viramundo acredita ser correspondido. E é essa distorção da realidade a responsável pelos vários quiprocós por que passa o personagem ao longo de toda a narrativa. Os eventos em que se vê enredado são certamente muito hilários, como a revolução que promove em um hospício ao se travestir de médico. Verdadeiro Dom Quixote, Viramundo enfrenta suas próprias batalhas, é auxiliado em cada momento por um Sancho Pança  diferente, e tem como musa sua própria Dulcineia. A narrativa de O grande mentecapto é envolvente, e o desfecho do romance é bastante surpreendente. 

Se a história em si já é interessante e envolvente, o romance tem como grande atrativo a participação do narrador, fazendo comentários inusitados sobre a própria narração, e estabelecendo relações intertextuais com outras obras literárias, como é o caso, evidentemente, do clássico de Miguel de Cervantes. A obra também tem o mérito de usar por vezes uma linguagem erudita, o que me obrigou a fazer diversas consultas ao dicionário, mas sem perder, em qualquer momento, seu tom leve e fluido. Enfim, esta obra de Sabino é excelente para quem quiser se divertir lendo um livro.


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