Dimas, o bom ladrão, encara Capitu


Sérgio Santos da Silva

Posso dizer que efetivamente estou conhecendo Fernando Sabino agora. Apesar de já ter lido uma boa quantidade de contos e crônicas do escritor, só agora paro para apreciar uma obra inteiriça, como foi o caso do romance O grande mentecapto, sobre o qual escrevi recentemente. A leitura desse livro foi tão interessante, que logo quis me aventurar em outro, agora uma envolvente novela de mistério em 19 capítulos. Falo de O bom ladrão, obra no qual Sabino revela todo seu talento em retratar fatos e situações ambíguos, em uma narrativa que presta tributo a Machado de Assis. Dimas, o protagonista, lembra-nos, em certa medida, Bentinho; Isabel, sua esposa, remete-nos a Capitu; e Garcia, seu primo, parece cumprir o papel de Escobar. Longe de ser mero pastiche do famoso romance realista do século XIX, a obra, apesar de dialogar com Machado, Eça de Queiroz e Gustave Flaubert, apresenta-nos uma história original, codificada em uma linguagem moderna.

Tal como em Dom Casmurro, a narrativa de O bom ladrão é feita em 1ª pessoa. A história já se inicia com o narrador, Dimas, debruçando-se sobre o enigma de Capitu: teria ela cometido traição ou tudo não passaria de imaginação de Bentinho? Não chegando a uma conclusão sobre essa questão, o narrador passa a contar de que forma ele, que trabalhava na redação de um jornal em Belo Horizonte, conheceu aquela que seria a sua esposa: Isabel. Conforme o próprio narrador nos diz, as grandes decisões da vida de Dimas parece ocorrer sem planejamento, como que por acaso. Foi assim sua decisão de sair do interior em direção à capital, a conquista de seu emprego, a forma como conheceu Isabel,  o repentino casamento dos dois. Esses últimos acontecimentos são decisivos para virar sua vida de ponta-cabeça. Dimas passa a conhecer melhor sua esposa e a conviver com seu comportamento suspeito e dissimulado. Isabel, conforme nos faz saber o narrador, parece sofrer de cleptomania, realizando pequenos furtos de objetos de pouco valor. Além desse comportamento inusitado, o desinteresse paulatino pelo marido e a amizade muito íntima com seu primo Garcia parecem-lhe suspeitos. Ou, tal como o romance de Machado, tudo não poderia ser apenas fantasias do narrador?

A novela de Fernando Sabino tem o grande mérito de conseguir condensar, em 96 páginas, uma história com um enredo interessante, em que há uma boa dose de mistério e densidade. Para um estudioso da Literatura, apresenta um material em que se pode explorar a análise psicológica dos personagens, bem como as relações intertextuais com autores realistas (além de Dom Casmurro, são citados no texto O primo Basílio e Madame Bovary) e com a narrativa bíblica, já dada no título do livro. Enfim, O bom ladrão é uma excelente obra tanto para a pura fruição despretensiosa, conforme eu fiz, quanto para o estudo de caráter científico. A novela foi publicada pela editora Ática e pode ser adquirida pela Amazon acessando este link.


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