Em janeiro de 2018, a filósofa Márcia Tiburi negou-se a participar de um programa de rádio no qual estava previsto, sem o conhecimento dela, um embate com um representante do Movimento Brasil Livre, no caso, o então candidato a deputado federal Kim Kataguiri. Na ocasião, apontou-se o que seria um discurso hipócrita da filósofa, que, ao se negar ao debate com quem ela considera fascista, estaria depondo contra seu próprio livro: Como conversar com um fascista. Antes de ler o livro, confesso, também tive uma interpretação semelhante do incidente, isto é, pensei que que se tratava de uma contradição entre seu discurso e sua prática. No entanto, tendo terminado a leitura da mencionada obra, mudei de opinião. Não há contradição. Como conversar com um fascista, diferente do que se possa imaginar, não é um receituário de prescrições de como se deve conduzir um diálogo com o fascista. Em vez disso, Tiburi faz várias reflexões em torno do que se constitui o verdadeiro diálogo, e porque o diálogo com o fascista é, senão impossível, bastante improvável. O fascista é justamente o indivíduo que se fechou para o diálogo, uma vez que não se permite à menor dúvida. Suas certezas absolutas se traduzem em atitudes autoritárias e negadoras de uma alteridade, isto é, de um outro com quem possa, efetivamente, dialogar. Quando não há o reconhecimento do outro, ou seja, do indivíduo que não se reduz à condição de "mesmo", de um igual, é impossível ouvi-lo, uma vez que se nega sua prerrogativa de sujeito. Assim, ou o outro é mais um "mesmo", ou representa uma categoria negativa. Foi dessa forma que se possibilitou - e ainda se possibilita - a desumanização de comunistas, judeus, mulheres, homossexuais, negros, indígenas, etc. Tudo o que não se enquadra no ponto de vista do patriarcado branco cristão e ocidental, nesse sentido, é hostilizado e negado. Dessa forma, não basta haver uma interação verbal entre diferentes para que haja diálogo efetivo. Muitas vezes o que temos é o pseudo-diálogo, melhor nomeado como discurso, uma vez que, para o fascista, o diferente não merece ser ouvido, antes deve se enquadrar na verdade única da qual ele é o detentor; do contrário, pode mesmo ser eliminado. Essa e muitas outras reflexões sobre a natureza do verdadeiro diálogo encontramos nessa importante obra de Márcia Tiburi, que, aprofundando-se no tema da natureza autoritária do fascista, acaba abordando outros temas incômodos para a mentalidade fascistóide, como patriarcado, machismo, cultura do assédio, feminismo, causa indígena, etc. Se você defende a democracia em oposição ao fascismo, precisa ler essa obra.

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